
O plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro nasceu de uma promessa direta: “resgatar” o agro brasileiro. O senador do PL-RJ lançou o plano de governo “Para o Brasil Vencer o Atraso” em 13 de agosto, recebeu um documento de propostas do setor em abril e voltou a falar em agricultura na Festa do Peão de Barretos, em 22 de agosto. Entre um discurso e outro, porém, o que existe de proposta concreta para quem vive de plantar, criar e exportar ainda cabe em poucas linhas.
Este texto reúne o que foi divulgado até agora, separa promessa de plano e mostra onde a candidatura converge ou diverge dos concorrentes diretos no eleitorado rural.
A resposta curta
O plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro cita o setor de forma genérica, dentro de uma lista de setores a receber incentivo. As propostas mais específicas, como seguro rural, armazenagem, fertilizantes nacionais e regularização fundiária, vieram de um documento entregue por lideranças do agro em abril e que ele prometeu incorporar. Até agora, o discurso está à frente do detalhamento técnico.
O que Flávio Bolsonaro promete para o crédito e o seguro rural?
A proposta mais recorrente nas falas de Flávio é ampliar o seguro rural, com uma combinação de recursos públicos e privados, e reforçar mecanismos de securitização para proteger o produtor de quebra de safra e oscilação de preço. O plano também menciona ampliar a capacidade de armazenagem, um gargalo antigo do país, que ainda perde parte da colheita por falta de silo e armazém na hora certa.
Não há, até a publicação deste texto, uma proposta de taxa de juros, fonte de recurso ou cronograma para o Plano Safra. É um objetivo declarado, não um desenho de política.

Como fica a regularização fundiária e o CAR no plano de Flávio Bolsonaro?
No eixo fundiário, o plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro traz duas promessas lado a lado: fortalecer a titulação de terras, com foco declarado em pequenos produtores, e consolidar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) junto com o pagamento por serviços ambientais. Na prática, isso significa dar mais segurança jurídica a quem já ocupa a terra e transformar a conformidade ambiental em fonte de renda, e não só em obrigação.
O ponto de atenção fica no que não está no texto: não há menção a reforma agrária nem a demarcação de terras indígenas, temas que aparecem no plano de Lula (PT) e nas propostas de partidos à esquerda do espectro. A ausência não é um detalhe, é uma escolha: o eixo de Flávio é dar segurança à estrutura fundiária existente, não redistribuí-la.
Fertilizantes nacionais: a aposta nas reservas minerais do Brasil
No capítulo de insumos, o plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro fala em apoiar a produção nacional de fertilizantes usando reservas minerais do país, uma resposta direta à dependência brasileira de potássio e outros insumos importados, tema que ficou sensível desde a guerra na Ucrânia. A proposta caminha junto com ampliar áreas irrigadas e incentivar combustíveis sustentáveis, mas, como no crédito rural, o texto público ainda não detalha quais jazidas, qual investimento ou qual prazo.
O que ele diz sobre a tarifa da China sobre a carne brasileira?
Este é o ponto onde Flávio Bolsonaro foi mais específico, embora com um tropeço nos números. Em 11 de julho, ele afirmou que a carne bovina brasileira enfrenta uma tarifa de 12% mais um adicional de 55% acima de determinada cota de exportação para a China, somando, segundo ele, 62%. A conta correta dá 67%, segundo apuração do Poder360, e a diferença não é só aritmética: a cota isenta da tarifa cheia é de 1,1 milhão de toneladas, e o Brasil já exportava perto de 1,5 milhão de toneladas até novembro de 2025, o que deixa cerca de 400 mil toneladas sujeitas à tarifa integral em 2026.
Na ocasião, Flávio disse estar disposto a procurar diretamente a embaixada chinesa para reverter a cobrança e atribuiu o problema à condução comercial do governo Lula, citando também uma missão a Washington para tentar evitar tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O episódio resume bem o tom da candidatura no comércio exterior: crítica direta à diplomacia atual, sem um plano B detalhado caso a negociação não avance.
Como as propostas de Flávio Bolsonaro se comparam a Zema, Caiado e Lula?
Em pontos centrais, Flávio caminha junto com outros pré-candidatos de centro-direita. Como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), defende seguro rural em parceria público-privada e produção nacional de fertilizantes. As diferenças aparecem no detalhe: Caiado fala em prazo de 180 dias para decisões administrativas do setor e cita a dependência de 40% das exportações do agro em relação à China como risco a diversificar; Zema aposta mais em infraestrutura, flexibilização do Mercosul e entrada do Brasil na OCDE, com crédito rural condicionado a equilíbrio fiscal.
Na crítica ao ambiente de negócios, Flávio é o mais enfático: aponta burocracia, carga tributária e gasto público como os três entraves que travam o agro antes mesmo de chegar à porteira, e defende corte de impostos e controle da dívida pública como base para qualquer política setorial. É um discurso que conversa direto com o produtor que já sentiu no bolso os efeitos da reforma tributária no agronegócio.
Já com Lula (PT), a convergência existe no tema do seguro rural, mas para por aí. O plano petista busca equilibrar agricultura familiar e agronegócio exportador; o de Flávio não menciona reforma agrária nem demarcação indígena e trata produtividade dentro da estrutura de propriedade que já existe.

A leitura KB
Terra e planilha, aqui, ainda não fecham a conta. O plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro reúne diretrizes com apelo claro ao produtor, seguro rural, fertilizante nacional, CAR consolidado, mas sem os números que decidem se uma política sai do papel: taxa de juros do crédito, orçamento para armazenagem, prazo para regularizar um CAR pendente. É a diferença entre prometer resgatar o agro em três minutos de discurso em Barretos e apresentar um plano safra com fonte de recurso definida.
Para o produtor que vota pensando no próprio caixa, o sinal mais concreto até agora não veio do plano de governo, e sim do erro de conta sobre a tarifa da China: mostra que o tema do comércio exterior está no radar da campanha, mas também que o grau de detalhe técnico ainda precisa evoluir.
O que fazer com isso
Quem depende de crédito, seguro ou regularização ambiental para planejar a safra 2027 não deve tomar o plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro como política pronta. Vale acompanhar três frentes: se o documento entregue em abril pelas lideranças do agro vira, de fato, capítulo detalhado do plano; se aparecem números concretos para Plano Safra e armazenagem; e como a candidatura reage ao próximo capítulo da disputa comercial com a China, já que o tema tende a voltar à tona conforme a safra de exportação avança.
Confira também nossa cobertura sobre a bancada ruralista nas eleições de 2026, que mostra como as pautas do Congresso pressionam qualquer plano de governo para o agro, e o nosso guia sobre o crédito rural para 2026/27, para acompanhar como as promessas de campanha se traduzem, ou não, em política concreta.
Momento da campanha.
Propostas de campanha podem mudar até lá. Este texto será revisado a cada marco relevante: convenções, registro de candidatura, debates e, por fim, o resultado das urnas em outubro de 2026.
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Perguntas frequentes
Qual é o plano de governo de Flávio Bolsonaro para o agro?
Não um documento único e detalhado. O plano geral “Para o Brasil Vencer o Atraso” cita o agronegócio como setor a incentivar, e as propostas mais específicas vieram de um documento entregue por lideranças do setor em abril de 2026, que ele disse que incorporaria à campanha.
O que Flávio Bolsonaro propõe para o crédito rural?
Ele fala em ampliar o seguro rural com modelo público-privado e reforçar a securitização, mas ainda não detalhou taxas, fontes de recurso ou metas para o Plano Safra.
Flávio Bolsonaro fala em regularização fundiária?
Sim. O plano cita fortalecer a titulação de terras, com foco em pequenos produtores, e consolidar o Cadastro Ambiental Rural junto com pagamento por serviços ambientais.
Qual a diferença entre as propostas de Flávio Bolsonaro e as de Lula para o agro?
Os dois citam seguro rural, mas Flávio não menciona reforma agrária nem demarcação de terras indígenas, temas presentes no plano de Lula. O foco de Flávio é segurança jurídica dentro da estrutura de propriedade já existente.
